Ano após ano chega uma data importante em que o batimento cardíaco de uma cidade andaluza é medido e misturado entre tambores e tradição.

A Semana Santa em Baena (Córdoba, Espanha) não é contemplada, é vivida. Não é um espetáculo, é um sentimento que captura, abana e transforma. O visitante que entrar nesta terra durante a Paixão de 2025 não só testemunhará uma tradição secular, mas passará a fazer parte dela. Porque em Baena a Semana Santa não se ouve, sente-se. E uma vez sentido, fica para sempre no coração.

No coração da Andaluzia, onde a história se confunde com a devoção, Baena surge a cada primavera como um cenário onde a fé, a paixão e a tradição atingem o seu apogeu na celebração da sua Semana Santa. Não é apenas uma comemoração religiosa; é um sentimento que abala, que ultrapassa as fronteiras da cidade e contagia quem se deixa levar pelo barulho dos tambores e pela solenidade das suas procissões.

O som da alma: o tambor Baena

Nada define melhor a Semana Santa em Baena do que o som incessante dos tambores. Uma batida de tambores que não só marca o ritmo das procissões, mas que também parece incendiar o próprio pulsar de uma cidade dedicada à sua tradição. Tocar o tambor não é um simples acompanhamento musical, é uma linguagem própria, um código de emoções que transporta baenenses e estrangeiros para um universo onde o tempo pára e a paixão se transforma em som.

As irmandades de judeus, divididas em vestimentas(xales) de oração pretas e vestimentas de oração brancas, são a alma sonora desta celebração. Com uma cadência inconfundível, percorrem as ruas acompanhando a passagem das irmandades. Cada procissão é um retábulo vivo onde a cor das filas, a solenidade das vestimentas e o rugido rítmico dos tambores criam uma imagem que perdura na memória de quem tem o privilégio de presenciar.

O Protocolo Judaico: Uma tradição antiga

Baena não vive a sua Semana Santa apenas nas procissões, mas também na rigorosa tradição do seu protocolo. Todos os anos, as quadrilhas encarregadas das “caixas e bandeiras” assumem um papel essencial: reunir as restantes quadrilhas, os Evangelistas e o rei Herodes para começar o dia. Durante o percurso da procissão, estes grupos duplicam diante das imagens, marcando o caminho da devoção com o seu tambor.

O judeu de Baena não é apenas mais um personagem na representação da Semana Santa. A sua presença é fundamental nos cantos da Quaresma, onde o som do tambor se funde com a oração em honra de Nosso Pai Jesus de Nazaré e da Virgem do Rosário. Sem o capacete, mas com a mesma solenidade, acompanham estas liturgias que são um prelúdio aos grandes dias da paixão.

Pontos altos: a essência da Semana Santa em Baena

Cada dia da Semana Santa em Baena tem a sua pulsação, o seu momento de emoção incomparável. A Quarta-feira Santa marca o início da participação das duas turbas de judeus nas procissões, mas é na Quinta-feira Santa que a cidade está completamente imersa na intensidade da sua devoção.

A madrugada da Sexta-Feira Santa é o clímax da paixão. O movimento das irmandades parece desafiar o tempo, alongando-o num quadro de meditação e solenidade. Pela manhã, o tambor continua a ressoar, acompanhando o passar de um dia em que o sentimento religioso atinge a sua mais pura expressão. De manhã o Nazareno e à noite o Doce Nome caminham pelas ruas acompanhados de um fervor que se nota em cada esquina.

E chega o Domingo de Páscoa, uma explosão de luz e alegria que dá o toque final a uma celebração onde a fé e a tradição marcam cada momento. O som da turfa torna-se omnipresente, uma melodia que fica gravada na alma de quem viveu esta experiência única.